Sometimes at night, when I’m completely alone, when I’m staying in the dark, I feel the cold inside me. I feel all the pity, all the regret, all the frustration that I deserve.
And when the cigarettes are not enough to get through it, I put my headphones and turn up the volume so high as to almost brust my ears, and then I just dance.
And dancing I feel the tears getting out, trying hard to not to think of anything. And if I’m lucky, I get it. So, I dance and cry and sweat and yell. I feel free, I feel mine again. Dancing I learned not avoid the pain. Because I know when it begins one more time, I will dance my pain away.

Renato,
Quanto tempo. Garoto, você sumiu. Como vão as coisas? Aqui vai tudo bem, meio sobrecarregado, na verdade. Os professores nos obrigam a ler códigos e mais códigos, todos os possíveis. Eu me mudei, como você pode ver pelo remetente. Estou morando na parte de cima de um sobradinho aqui na Caxias, você devia vir vê-lo, é a sua cara! A rua é repleta de árvores e depois, quando chove a noite, pela manhã a rua fica toda úmida, com um pouco de lodo pelos muros. A varanda é bem ampla, eu adoro fumar lá, sentado na minha cadeira vendo as copas das árvores num verde incandescente, quase converso com as tulipas que você esqueceu comigo. Elas floresceram de novo, mês passado. Parece que foi ontem que eu vi você ao pé da janela, regando-as enquanto me contava quão maravilhosas são as plantas, com seus braços extensos manuseando um conta-gotas, às vezes parando para recolocar o óculos que descia pelo seu nariz. Como vão as aulas de botânica? Você devia se especializar nisso, como você gostava.
Eu escrevi pra poder dizer que eu te perdôo. Perdôo por ter me machucado, e te desculpo até por aquilo que você não pediu perdão. Meu coração não me deixa ter raiva de você, e agora que o tempo passou e você foi embora, a única coisa que eu posso fazer com você é te perdoar. Perdôo seus atrasos, sua incapacidade de assistir àquele filme do Godard que eu tanto gosto, por ter me queimado com a panela de brigadeiro, foi acidental, mas está perdoado.
Você tem o meu perdão por ter nos deixado, eu e as tulipas. Por não ter lutado, por não ter entendido o fato de que eu queria você, mesmo não tendo nada pra me oferecer. Eu te perdôo por não ter chorado tanto quanto eu chorei.
Eu só não sei mais o que fazer comigo. Eu sento aqui, vejo a carteira de cigarros sumindo na minha frente, esperando pelo carteiro que veio uma vez, olhando pra caixa de livros de biologia que você nunca veio pegar e agora virou minha mesa de centro.
Eu terei outros braços ao meu redor, terei outros pés entre os meus, sentirei outros hálitos, rirei de outras piadas sem graça, dançarei com outrem. Mas os braços não terão pintas como as suas, os pés não serão tão lindos, o hálito não será tão confortável. E mesmo se o beijo for melhor, o pé mais bonito e o braço mais pintado, ainda não serão você.
É óbvio que eu te espero. Também por que eu já não sei mais ser outra pessoa se não a que espera por você. Eu estudo, saio, me divirto, mas no fim da noite, ou depois do almoço, ou sempre, eu sinto em mim uma espera louca. Como se por dentro eu estivesse naquele corredor da faculdade esperando você tropeçar na minha mochila e cair, mais uma vez. E mesmo sabendo que é inútil, mesmo tendo a certeza de que as coisas acabaram naquele mês, eu ainda espero. Esperar, perdoar e esperar.
Nós esperaremos. Eu e as tulipas.
Sofia.
É terrível dirigir pela noite com um farol alto em seus olhos, refletidos pelo retrovisor. Marcelo mal conseguia ver a estrada à sua frente, e tinha que desviar a cabeça do lugar onde ela deveria ficar. E mesmo sabendo que iria doer, jogou os olhos em direção ao retrovisor uma ultima vez, torceu o nariz e ainda que o motorista atrás dele não pudesse ouví-lo, xingou. E logo arrependeu-se de tê-lo feito.
Reduziu a velocidade, e nos dois segundos seguintes o algoz caiu em uma profunda crise de stress. No átimo que viria, ligou a seta e ultrapassou-o. Aliviou-se nosso herói. Do carro emergia um som baixinho, o qual não se saberia distinguir se era folk ou forró, e não fazia diferença. Marcelo estava longe, cabeça correndo como a estrada sob seus pneus. E lá com ele começou a pensar coisas bobas.
As pessoas pensam coisas relativamente insignificantes quando não têm que pensar em nada, simplesmente por não poderem dormir. Olhando as listras amarelas - algumas contínuas, outras picadas, mas sempre constantes - lembrou-se de quando era criança. Num dia, jogando vídeo-game, lhe veio a epifania de que se para ser um motorista de verdade fosse preciso a mesma coordenação que ele tinha naquele jogo de corrida, ele então nunca poria as mãos em veículo algum - como ele era ruim.
O tempo e a prática contestaram a conclusão pueril. E naquela noite recém-nascida congratulou-se por conseguir manter o carro entre as listras amarelas. Orgulhou-se por não ter sofrido nunca um acidente, e divagou mais.
Estrada esguia, descida da serra, vista categórica: de um lado, apenas o paredão de rocha da colina, do outro, o altíssimo barranco que mesmo a luz do dia parecia um abismo, e no meio a estrada fazendo cócegas na pequenina montanha. Entre uma divagação e outra, a estrada estava deserta. A cerca de metal à beira da estrada - que de nada servia - delimitava o espaço físico de um breu infinito. E aconteceu aqui o que acontece na maioria das vezes: esporadicamente, quando se põe limite em algo, quando é determinado o fim de alguma coisa, aquilo não serve para nada além de aumentar ainda mais as dimensões do que está além. Limites engrandecem o divino, o obscuro.
Assim, se não houvesse aquela barreira, Marcelo saberia exatamente que depois daquela estrada haveria uma queda gigantesca e lá embaixo haveria mais solo, árvores e provavelmente mais ao fundo outra estrada. Mas a cerca mudou tudo. À noite, aquele limite engrandecia de tal forma o que estava depois que ele chegou a conseguir fazer de conta que andava numa estrada pela borda do mundo, se esse mundo em questão fosse quadrado.
A estrada ficou mais íngreme, e fazendo uma curva, eis que Marcelo se depara com um inócuo macaco no meio de sua pista. O click invisível soou e tudo aconteceu em câmera lenta. Marcelo, assustadíssimo com o animal (se tivesse mais tempo, se perguntaria o que fazia um macaco em terras daquela altura), numa reação bondosa de seu subconsciente - como ele, em um todo - desviou bruscamente o carro do destino do primata. A física e a velocidade tomaram conta do volante, a seu modo. Para tentar compensar, ele virou ainda mais rapidamente para o lado oposto, mas não foi o bastante. O carro bambeou, desalinhou-se e foi de encontro ao limite desconhecido, e para além dele. O grau zero do barranco - que mais parecia uma parede - deixou que o carro apenas caísse livremente pelos primeiros 20 metros.
Mas então o carro bateu em alguma coisa e começou a dar cambalhotas quase perfeitas.
E aí, nada. Nada, nenhuma divagação, nenhum pensamento, sem preces. Ou ele pensava tão rápido, assistindo ao filme da sua vida que ficou seriamente letárgico, ou apenas ficou seriamente letárgico. Tão angustiante quanto saber que o ponto final está logo ali no final da queda é não conseguir pensar em exatamente nada antes de chegar a ele.
Eu, como contador, sinto até vontade de mudar as coisas, contar que era um sonho dele, ou que Deus passou e carregou o carro consigo, mas eu não posso. Não posso principalmente porque mesmo sendo um cara legal, Deus realmente não passou por lá, e porque eu já joguei o Marcelo de lá de cima. E foi assim que aconteceu, infelizmente.
E logo lá no finzinho, milésimos antes do carro se esmiuçar em forma de sanfona e um átimo antes de o Marcelo virar vísceras no painel do automóvel, ele arranjou um jeito, e pensou numa última coisa, e dada a situação, foi a coisa mais sensata que ele poderia ter alcançado. Já que de nada adiantava reclamar, só pôde desejar longa vida ao macaco.
Talvez a relação não vá mais dar certo. Em alguns momentos é melhor cada um ir para o seu lado. Não que seja o certo, o fácil ou o mais saudável, mas talvez seja o curso natural das coisas. Às vezes, o único não deva ser mais, o único. Por motivo nenhum.
Tendo vista da vida pela lente pessimista, ou realista - juram alguns - uma relação entre duas pessoas seja sempre reincidente, e a paixão possa ser somente o som das mãos golpeando as pontas das facas. E com o passar da idade as relações só durem mais porque os punhos se acostumaram, ou as facas precisem ser afiadas novamente.
Há aquilo que escrevo. Algo que aconteceu comigo, e que - mesmo triste, embaraçoso ou aparentemente desnecessário - sinto precisar ser compartilhado, fatos que clamam por isto: não serem esquecidos. Algo que imagino, e vem com a força de uma fotografia ou de uma cena em movimento, que de tão viva, obriga-me a contá-la, com a maior riqueza de detalhes. Algo que estou pensando, uma opinião tão pesada e de tão plúmbea força que precisa ser dividido, mesmo que ninguém leia, que seja lá uma doida catarse.
E há aquilo que não escrevo. Coisas que me constituem, que constroem um cotidiano de impropérios e ilusões, então não escrevo para não desconstruir. Coisas que me lembro, como a vergonhosa parte do ser humano, a voz que diz terríveis verdades, ou terríveis versões de fatos, e que infelizmente não só eu possuo, então não escrevo para não lembrar. Coisas que acontecem, que de tão marcantes, têm de ser guardadas a vácuo, como um perfume que não se borrifa para não ser evaporado. Não escrevo para não esquecer.
Isto dito (escrito), não significa que os fatos impublicáveis sejam mais importantes ou de mais valor que os pulicáveis. É que apenas dos impublicáveis eu não consigo fugir, esquecer ou deixá-los pelo caminho.